MARCUS MOSIAH GARVEY: A RESSURREIÇÃO DO NEGRO (UNIÃO, RETORNO À ÁFRICA, BLACK MONEY)

Atualizado: Abr 12


Marcus Mosiah Garvey foi um grande ativista Jamaicano que viveu entre 1887 e 1940. Garvey foi um dos líderes do que pode ser considerado um movimento nacionalista negro, que ficou conhecido como movimento de retorno à África. Seu livro, A Ressurreição do Negro: Um Deus, Um Caminho, Um destino, é um compilado de traduções de discursos que o ativista Garvey realizou pelo mundo defendendo suas ideias.


Garvey cresceu na Jamaica, mas realizou uma viagem para Londres em 1912 e em seu retorno para a Jamaica fundou a UNIA, em 1914. A UNIA tinha como objetivo unir todas as pessoas negras do mundo em prol do que ele chamava de “redenção” da África: seu desenvolvimento e independência.


Garvey constrói seu movimento de retorno à África baseado no fato de que os negros não vieram voluntariamente para o ocidente, foram trazidos à força, e ao fato de que os países da África ainda viviam sobre o domínio do imperialismo europeu. Defende que “se o homem amarelo possui uma nação e o homem branco possui uma nação, portanto, o homem negro também deve possuir”.


PARADOXO RACIAL


Em certo discurso do livro, Garvey aponta uma crítica aos recém negros ricos:


“O Negro rico não é filantrópico de sua raça. Ele não fornece ou ajuda proporcionalmente às suas instituições raciais como os brancos ricos. Um Rhodes, um Rockefeller ou um Carnegie, ou qualquer outra pessoa branca e rica criará fundações, escolas científicas de pesquisas, clínicas, hospitais ou bolsas de estudos, mas o Negro preferiria se inscrever ou doar para essas instituições brancas para se exibir ao invés de fazer para sua própria raça.” P.39


Não é novidade até agora que a estrutura dominante e o sistema de fluxos econômicos é basicamente branco. Quando vemos uma pessoa negra em posição financeira de destaque, devemos reparar que (na grande maioria das vezes) a estrutura que gira em torno dessa pessoa é predominantemente branca. O topo da cadeia financeira é sempre branco. Por exemplo, podemos até ter atores negros ricos, mas quem lucra com o trabalho deles é um sistema branco. Nisso torna-se prioritário fazer o dinheiro circular entre as pessoas negras. Desde a menor coisa até as maiores. Priorizar comprar com vendedores negros, consumir artistas negros, contratar pessoas negras não é querer inferiorizar as pessoas brancas, como muitos dizem, mas simplesmente dar o pontapé inicial pra começar a igualar o jogo.


Entre algumas informações de uma entrevista da Nina Silva, líder do Movimento Black Money, vi que os fornecedores de crédito emprestam 3x mais para empreendedores brancos do negros. Nessa mesma entrevista Nina fala o seguinte: “No Brasil, teríamos dois desafios: (1) trabalhar o empoderamento como fio condutor de atividades, mas, principalmente (2) fortalecer a cadeia produtiva preta. Não conseguimos se não formos donas e donos de nossos meios de produção (...) Conseguimos comprar numa padaria de negros, mas esse padeiro não consegue comprar a farinha de um fornecedor negro”.


Essa lógica não se aplica só a dinheiro. Informações, arte e educação também deve circular entre os pretos. Não adianta muito tratar de um tema que eleve a negritude em uma linguagem que a maioria das pessoas negras não irá entender, ou através de meios e ambientes que a maioria das pessoas negras não tem acesso (a academia é um ótimo exemplo disso). Temos ainda muito a caminhar nesse sentido.


NACIONALIDADE, RETORNO À ÁFRICA E CAPITALISMO


Confesso que o movimento de retorno à África me deixou com algumas reflexões que ainda não tiveram conclusões. Entendo o movimento como um retorno não necessariamente físico, mas tentar retornar aos conhecimentos e epistemologias (formas de produção de conhecimento) e voltar suas ações e participações na sociedade em prol do desenvolvimento e emancipação efetiva dos países do continente africano.


Reflito que devemos nos situar dentro do cenário atual. Somos africanos em diáspora, mas cada uma das pessoas negras fora do continente africano possui uma nacionalidade. Devemos reconhecer que não conhecemos profundamente a realidade cultural e epistemológica atual dos países africanos (até porque são inúmeros países e realidades). Acredito que qualquer tentativa de retorno que não reconheça isso tende a ser impositiva. Estamos há séculos vivendo no ocidente e devemos reconhecer, no mínimo, que não somos nós quem sabemos a melhor forma de fazer os países africanos de desenvolverem, mas que devemos, sem dúvidas, buscar a união dos africanos e dos africanos em diáspora para romper as barreiras da sociedade internacional racista e, dessa forma, tornar o sistema internacional um lugar mais propício para o desenvolvimento dos países africanos. Penso que devemos descobrir como fazer isso sem nos atribuir o papel de "salvadores da África".


Garvey se refere a esse retorno da seguinte forma:


“O Negro tem que começar do zero do comércio de da indústria e daí ir adiante. [...] Negócios são necessários, lojas, mercados, atacado e varejo, e fábricas. São esses os locais onde a maioria das pessoas trabalham fora das fazendas. O Negro tem que ser empregado e ser seu próprio empregador, deve também ter suas fazendas, lojas, fábricas e moinhos independentes. E tem que começar assim como fez o homem branco, a partir de uma fábrica com uma única sala até a grandiosa fábrica na encosta da planície.” P 99


Mas queremos mesmo realizar esse movimento tendo em mente fazer exatamente a mesma coisa que fizeram os homens brancos e a sociedade ocidental? Revoluções industriais, evolução do sistema capitalista etc.? É óbvio que vivemos em um sistema mundial capitalista, então ao buscar o desenvolvimento dos países africanos é impossível negar o capitalismo por completo. Mas será que deveríamos fazer exatamente como o homem branco fez? Acredito que o movimento de retorno à África deve focar em buscar as epistemologias e modelos de sociedade naturais dos povos africanos e tentar melhorar o desenvolvimento dos países africanos através desses modelos. O movimento de retorno à África mostra, sem dúvidas, a união necessária dos negros em todos os países do mundo, mas torna-se nossa obrigação pensar: Como fazer esse movimento de retorno à África sem necessariamente reproduzir as desigualdades sociais? Como garantir o desenvolvimento dos países africanos sem sucumbir ao modelo capitalista ocidental?





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