Bell Hooks: amando a negritude, representações da mulher negra, reconstruindo a masculinidade

O livro olhares negros: raça e representação da Bell Hooks mostra diversas formas de representação do povo preto no cinema, na música e na literatura. É um livro riquíssimo em exemplos, o que torna muito fácil entender as colocações que ela faz durante o texto. Sabemos que a forma como os corpos e mentes pretos e pretas são representados (as) ao mesmo tempo que reproduz os estereótipos ajuda a moldá-los dentro de uma sociedade, a partir disso ela traz algumas questões acerca da representação e seus trejeitos.


No primeiro capítulo do livro, Hooks traz a necessidade de amar a negritude. Percebo que nós não estamos 100% nesse local de amar a negritude e acreditar que a negritude tem infinitas razões para ser amada. Digo isso porque nós falamos muito mais sobre as dores que ser preto traz do que as coisas positivas. Porque falamos muito mais do nosso sofrimento do que simplesmente exaltamos as culturas e epistemologias (sejam elas originárias dos povos africanos ou as manifestações contemporâneas). É óbvio que é necessário falar sobre nossos sofrimentos e dores para que enquanto sociedade entendamos como o racismo opera, e também para nossa própria saúde mental, mas também não merecemos momentos em que ser preto é bom e ponto? Em que manifestamos nossa alegria e orgulho da negritude e ponto? Sem mais – e principalmente: sem mas? Tenho tentado fazer o seguinte exercício: sempre que esbarro em algum processo de dor durante a história, tento exaltar o lado positivo no lugar. É diferente falarmos que “os brancos escravizaram os negros durante a escravidão e eles sofreram diversas formas de violência e por isso merecem reparação histórica” e falarmos que “os negros lutaram ativamente durante a escravidão até o ponto em que ela se tornou insustentável, e nós continuaremos lutando enquanto povo preto até que haja a reparação”. A primeira narrativa é a narrativa que o ocidente espera que tenhamos, onde os pretos são colocados num lugar passivo. A segunda narrativa é a narrativa que de fato acabará com o auto ódio e consequentemente somará na emancipação dos pretos enquanto povo.

Representações da sexualidade da mulher negra


Um outro ponto do livro são as representações da sexualidade da mulher negra na música e cinema. A imagem aceita da mulher negra era aquela da mulher sexualmente livre e estimulante, assim muitas mulheres negras entraram nesse personagem para que pudessem ser vistas pela indústria do entretenimento.


Um dos exemplos que ela trouxe, da Tina Turner, foi um dos que realmente atravessaram minhas vivências. Quantas de nós, mulheres negras, não acabamos por tentar nos reafirmar em cima do estereótipo hipersexualizado? As mulheres pretas que estão dentro de um certo padrão corporal são facilmente consideradas sensuais e lindas de corpo (mas os elogios nunca se referem à aparência facial), como se o corpo fosse a única coisa que pudessem oferecer. Eu sempre vivi muito dentro dessa identidade por causa das minhas características: pele mais clara, o corpo padrão e o cabelo cacheado. Ser reconhecida como a “mulata” era a única forma que eu encontrava para receber alguma atenção e algum elogio como as outras meninas recebiam. Até o meu corpo começar a se desenvolver eu não sabia o que era me achar bonita, e quando percebi que meu corpo começo a ser elogiado, meu coração se encheu de esperança e eu comecei a usar essa identidade de “mulata” massivamente, até porque era a primeira vez que eu recebia atenção.


A partir daí eu comecei a usa ro esse termo extremamente racista (mulata) pra me reafirmar dentro do grande pesadelo que chamamos de ensino médio. Vivi um bom tempo dentro desse personagem: a mulher desapegada que não dava chance pra nenhum tipo de relação. Afinal, sabia que eu não seria escolhida pra um relacionamento, só pra situações ocasionais, então preferia fingir que não queria um. Esse personagem que criamos acaba virando uma prisão, e eu só fui sair dela um tempo depois. Não tô tentando dizer, com isso, que eu sempre busquei/busco um relacionamento na minha vida, não é e nunca foi o caso, mas nós, mulheres negras, gostaríamos de poder cogitar isso durante nossas adolescências. E é exatamente o exemplo da Tina Turner. Hooks traz um trecho da autobiografia de Tina:


“Como não podia deixar de ser, perdi a virgindade no banco traseiro de um carro. Eram os anos 1950, certo? Acho que ele planejou tudo, o sacana – disse que não tinha nenhum filme bom passando naquela noite. Imagino que ele já sabia que poderia conseguir tudo, porque houvera muito beijo, carícia por dentro da blusa, depois por baixo da saia e assim por diante. O passo seguinte era óbvio. Quando a mim, uma garota meio descarada, quando chegou o momento de consumar o ato me senti na base de “já não era sem tempo”. Mas confesso que fiquei apavorada. E aconteceu. Doeu muito – acho que até as minhas orelhas doeram. Tive a sensação de que estava morrendo. E ele ainda quis fazer duas ou três vezes! Foi como cutucar uma ferida aberta. Eu mal conseguia andar depois. Mas fiz por amor. A dor era terrível: mas eu o amava e ele me amava, o que atenuava dor. Fui muito estimulada por Harry, que ainda por cima era um bom amante. Estava tudo bem. E por isso foi maravilhoso.” P 137


A carreira de Tina foi marcada nessa construção de imagem na mulher negra selvagem. Hooks cita que eu sua biografia ela descreve várias situações como essa, sempre tentando passar a imagem de que estava tudo bem e que ela tinha o controle, a imagem de que ela tinha nascido para o sexo. Essa construção se tornou a prisão de inúmeras mulheres pretas e o pano de fundo para vários tipos de abuso durante a história.


RECONSTRUINDO A MASCULINIDADE NEGRA


Hooks, obviamente, não é um homem negro, mas ela faz alguns apontamentos que acho importante trazer. A argumento de Hooks, nesse sentido é que o feminismo (termo que ela usa no livro) seria benéfico não só para as mulheres negras, mas também para os homens negros: “os homens negros também se beneficiariam do pensamento e do movimento feminista..” (CALMA, VOU EXPLICAR). Pra Hooks, o homem negro não faz parte do patriarcado, uma vez que a branquitude bloqueia continuamente seu acesso ao ideal patriarcal, mas independentemente disso, reproduz o machismo. Assim, o patriarcado é maléfico para os homens negros:


“Qualquer análise diante da difícil situação contemporânea dos homens negros revela a forma como o falocentrismo está na raiz de boa parte da violência de negros contra negros, enfraquece as relações familiares, influencia a falta de cuidados preventivos com a saúde e até desempenha um papel no estímulo ao uso de drogas. Muito dos hábitos destrutivos dos homens negros são adotados em nome da “virilidade...” P. 209


Ou seja, para ela, acabar com o machismo, o patriarcado e o falocentrismo é algo benéfico para população preta no geral, homens e mulheres, e o homem negro NÃO é privilegiado pelo patriarcado (eles reproduzem sim o machismo, e comparados com as mulheres negras, têm vantagens devido ao machismo e ao falocentrismo, mas essas vantagens NÃO somam um privilégio estrutural). Eu estranhei um pouco a leitura porque inicialmente me apeguei aos termos usados (quando ela usa a palavra feminismo para pautar a luta contra o machismo e o patriarcado dentro do movimento negro), já que o feminismo é um movimento branco e historicamente racista e toda aquela história que já sabemos, mas tentando enxergar a tese dela para além do termo, dá para entender bem o que ela quer dizer (nesse livro, pelo menos).


Não me alonguei muito sobre o que ela tem a dizer sobre a reconstrução da masculinidade negra porque nem ela e nem eu somos homens negros, mas achei importante trazer o que ela realmente acha sobre isso, já que por assumir o rótulo de feminista negra, já vi muitas pessoas a acusando de não fazer essa diferenciação entre o homem negro e o homem branco.


E aí, quais as suas impressões sobre os temas do livro da autora?

22 visualizações

© 2023 por Ator e Modelo. Criado orgulhosamente com Wix.com