Angela Davis: Mulheres, Raça e Classe e reflexões contemporâneas (feminismo, estupro e aborto).

Atualizado: Abr 4

OS ARRANJOS FAMILIARES ENTRE OS HOMENS E MULHERES NEGROS(AS)


Mulheres, Raça e Classe é uma daquelas leituras que nos faz entender muito melhor os movimentos e as características estruturantes que nos trouxeram para o lugar que ocupamos hoje na sociedade enquanto mulheres negras. O livro traz fortes relatos e trata sobre uma série de questões que eram relevantes em 1981, e que de um jeito assustador, permanecem praticamente iguais até hoje.


Quero iniciar ressaltando que esse texto não é uma resenha crítica sobre o livro da Angela Davis - na verdade, posso dizer com certeza que nenhum dos textos desse blog será uma resenha crítica - mas sim a formalização em palavras dos sentimentos e questionamentos que eu tive ao lê-lo. Quero dizer também que sei que todas as indagações feitas aqui podem não ser novidade para muitos, mas tenho certeza que será novidade para muitas das meninas mais jovens que me acompanham.


O primeiro capítulo - "O legado da escravidão: Parâmetros para uma nova condição da mulher" - foi , sem dúvida, a parte da leitura mais difícil de ser digerida. É um momento inicial em que ela nos traz um pouco da vida doméstica dos negros durante a escravidão e do lugar da mulher negra.


O primeiro mito que cai por terra é o mito de que a maioria das mulheres escravizadas trabalhavam dentro da Casa Grande. Apesar de eu já saber disso, porque é numericamente óbvio que a maioria imensa dos escravizados trabalhava nas lavouras, percebo agora que ainda assim eu reproduzia um pouco essa ideia dentro de mim, ao associar a imagem da mulher negra escravizada às trabalhadoras domésticas e amas de leite. Angela Davis ressalta que a maioria das mulheres negras trabalhava em igualdade com os homens negros, nas lavouras, com os mesmos castigos e mesmas metas de trabalho. Entender isso é um ponto fundamental para entender como a relação entre as mulheres negras e os homens negros não abria espaço para uma desigualdade, uma vez que, nesse sentido, sofriam a mesma opressão no campo do trabalho. Logo após essa ressalta, ela traz exatamente a postura dos senhores de engenho em relação às mulheres negras:


"A postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas." P. 12.


Ao trazer o estupro, Davis mostra que, a partir do momento em que o tráfico internacional de escravizados havia sido proibido, passou a ser mais importante para o senhor de engenho que a mulher negra engravidasse e reproduzisse, para que as próximas gerações de escravizados fossem garantidas. O estupro das mulheres negras, somado ao fato de que os escravizados eram tratados como mercadorias (facilmente vendidos e separados), fez com que muitas crianças fossem registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento. Isso colaborou para construir a imagem da família negra retratada como apenas sendo formada pela mãe e crianças, enquanto o homem negro retratado como um homem sem lar fixo, que de mudava de casa em casa, instituição em instituição, mantendo apenas laços frágeis.


E é aí que Angela Davis quebra o segundo mito que ainda permanecia no meu consciente: de que as famílias negras eram em sua maioria formadas apenas por mães e filhos. Ela cita a informação de que os negros e negras recorriam à diversas formas de manter famílias, diversos arranjos domésticos e redes de parentesco para lutar contra o determinismo que a escravidão tentou impor sobre as famílias negras. Adoção informal, criação de crianças por casais ou famílias que não são biológicas, uma figura masculina que passa a ajudar na criação de uma criança negra. Foram muitas formas através das quais os homens e mulheres negros (as) buscaram mostrar para as próximas gerações que não se devia aceitar o determinismo imposto pela branquitude. Esses arranjos foram uma das formas que encontraram de lutar frequentemente pela humanização do povo negro. Confesso que não sei, em dados numéricos, se a maioria das famílias não tinha de fato uma figura masculina, mas isso não importa pro que eu quero ressaltar aqui: precisamos parar de reproduzir a ideia de que as famílias negras eram formadas apenas por mãe e filhos e que os negros não apresentaram resistência contra isso. Reproduzir isso é uma violência, uma vez que aumenta imensamente a carga de responsabilidade sobre as mulheres negras e leva o homem negro a um local extremamente vulgar e desumanizado. Apesar do que tentam nos fazer acreditar, os homens e mulheres negros apresentaram, dessa forma, uma luta constante contra a animalização de suas individualidades, portanto, torna-se nosso dever, fazer o mesmo.



MOVIMENTO SUFRAGISTA E MOVIMENTO ABOLICIONISTA


A relação entre o movimento sufragista e o movimento abolicionista é uma coisa que sempre me deixou um pouco confusa no campo espaço-tempo. Já li em fontes negras confiáveis que o movimento sufragista foi um grande apoiador do movimento abolicionista, ao mesmo tempo em que sempre soube o quão racista era o movimento sufragista. A leitura desse livre esclareceu totalmente esse borrão: a guerra civil estadunidense foi o grande divisor de águas.


Antes da Guerra Civil eclodir, o movimento abolicionista tinha o movimento sufragista como seu maior apoiador. Contudo, a partir da Guerra Civil e da possibilidade do sufrágio ser expandido para o homem negro antes de ser expandido à mulher branca, as sufragistas não pouparam discursos racistas: na expressão mais descarada e cruel do racismo, apontavam que preferiam ser governadas por homens brancos, do que por homens negros. Os relatos racistas trazidos no livro não deixam espaço para dúvida.


Não me sentiria justa, entretanto, se não trouxesse a seguinte informação: existem sim alguns registros de alianças - entre mulheres negras e brancas - que foram verdadeiramente benéficas para as mulheres negras, e uma delas foi a aliança para vencer o analfabetismo no Sul dos Estados Unidos, na qual algumas mulheres brancas se arriscaram e defenderam juntamente o direito das jovens negras à educação.


Apesar de existirem alguns exemplos históricos em que a união entre mulheres negras e brancas foi benéfica para as mulheres negras, o movimento sufragista foi extremamente racista. Bom, a partir daqui eu falo por mim e somente por mim (que fique escuro que isso não está na obra de Angela Davis) e tento ser o mais simples possível para tentar desfazer a confusão interna das adolescentes negras quanto ao feminismo/ feminismo negro - a mesmo confusão interna em que eu me encontrava no auge dos meu 15 aninhos.


Quando eu tive o meu primeiro contato com o feminismo, no ensino médio, o feminismo foi apresentado da seguinte forma: se você é a favor de direitos iguais entre homens e mulheres, você é feminista. A partir daí, mesmo não me sentindo muito confortável com o rótulo, passei a me considerar uma feminista ferrenha. Não conhecia muito sobre o feminismo negro, mas me dizia feminista negra (já que eu me considerava feminista e era negra, parecia o certo a se defender). A questão é que apresentar o feminismo dessa forma é extremamente agressivo e desrespeitoso com as culturas não brancas e não ocidentais. Dizer que todas que defendem direitos iguais para todos os gêneros são necessariamente feministas, é reforçar o epistemicídio da cultura africana, e dizer que só há uma forma de não ser a favor do machismo e lutar contra ele: carregando a bandeira de um movimento europeu e ocidental (e historicamente racista).


E meu recado para as pretinhas mais novas é o seguinte: você não precisa se dizer feminista para lutar contra o machismo. Se você não se sentir confortável em carregar esse rótulo, você não precisa fazer isso, e isso definitivamente não significa que você é uma apoiadora do machismo. Você ainda não precisa ter certeza de nada. Hoje, entendo que esse determinismo em que "se você é uma coisa, é contra a outra" é uma coisa que surgiu da cultura ocidental. Não ser feminista negra, não significa necessariamente que você é contra tudo o que o feminismo negro ensina, nem significa que você não pode manter redes de contato com grupos feministas negros (eu, particularmente, acho sempre válido fortalecer sua rede de mulheres negras independentemente que qualquer outras coisa). Dessa forma, hoje, entendo o feminismo branco como um movimento benéfico para as mulheres brancas, e entendo o feminismo negro como uma luta que busca a igualdade perante o homem branco ocidental. O problema é que assim como há a necessidade de racializar as mulheres (não dá pra colocar a mulher negra e a mulher branca no mesmo barco), também há a necessidade de racializar os homens (não dá pra dizer que o homem branco e o homem negro são iguais, nem que reproduzem machismo da mesma forma). Existem muitas coisas, teorias e filosofias nesse mundo que você ainda não conhece, filosofias que não buscam essa igualdade com o homem branco porque simplesmente buscam destruir tudo o que o homem branco ocidental significa. Existem filosofias e teorias que não buscam igualdade de direitos dentro do mundo ocidental, buscam retornar à nossa cultura original. Esse pode ser um pensamento muito complexo pra você entender no momento, mas dê tempo ao tempo.


E agora tendo como público as mulheres negras mais experientes nesse tema: vocês acham que há algo que possamos fazer para que essas ideias mais abrangentes alcancem as adolescentes negras tão cedo quanto o feminismo tem as alcançado?


ESTUPRO E MITO DO ESTUPRADOR NEGRO


Um outro mito que eu ainda vejo sendo muito reproduzido por aí é o mito de que o estupro dos homens brancos contra as mulheres negras era sobre desejo sexual. O estupro vai muito além disso. As mulheres negras sofriam os mesmos castigos dos homens, além do estupro. Com isso, a intenção dos senhores de engenho era fazer com que as mulheres negras se sentissem inferiores ao homem negro, uma vez que sofriam além dos castigos físicos que eles sofriam, o estupro. A intenção por trás disso se mostra escura no livro: ao fazer a mulher negra se sentir inferior ao homem negro, ela não teria uma participação ativa na resistência contra a escravidão, pois não se sentiria igual ao homem negro para dividir esse protagonismo, e com isso, a resistência contra a escravidão cairia pela metade.


Além da instituição do estupro, após a abolição, surgiu o mito do estuprador negro, que foi um mito espalhado pela branquitude de que os homens negros seriam mais propensos a cometer estupros, e usavam esse mito para justificar os ataques e linchamentos ocorridos contra os homens negros no período pós abolição nos EUA.


De fato, não pretendo me alongar acerca desses tema, pois acredito muitos de nós já saibamos desses fatos. O ponto que quero ressaltar é que as mulheres negras não foram manipuladas à achar que os homens negros de fato eram mais propensos ao estupro, elas ofereceram resistência constante à isso, assim como os negros ofereceram resistência contra o determinismo que a branquitude quis impor sobre suas relações familiares. E é extremamente importante que saibamos e lembremos que as mulheres negras defenderam os homens negros contras as falsas acusações de estupro na época, que compuseram imediatamente a liderança do movimento de combate aos linchamentos e que, da mesma forma, nós, mulheres negras, devemos ficar atentas a essas repetições históricas.


OBS: É válido ressaltar que Davis não afirma que nenhum homem negro cometeu/ comete o crime de estupro, apenas que os homens negros não são mais propensos a isso do que os homens brancos (muito pelo contrário, uma vez que o estupro era institucionalmente usado pelos homens brancos).


DIREITOS REPRODUTIVOS, RACISMO E CONTROLE DE NATALIDADE


Na década de 1970, o movimento feminista começou a defender o direito ao aborto. A questão é que o aborto era tratado diferentemente entre as mulheres negras e as mulheres brancas:


"Quando os números tão grandes de mulheres negras e latinas recorrem a abortos, as histórias que relatam não são tanto sobre o desejo de ficarem livres da gravidez, mas sobre as condições sociais miseráveis que as levam desistir de trazer novas vindas ao mundo. As mulheres negras tem auto-induzido abortos desde os primeiros dias da escravidão. Muitas escravas se recusavam a trazer crianças a um mundo de trabalho forçado interminável..." P. 207


"Primeiro, as feministas enfatizavam cada vez mais o controle de natalidade como um caminho para carreiras profissionais e para educação superior - objetivos inalcançáveis para a população pobre com ou sem controle de natalidade. No contexto do movimento feminista como um todo, o episódio de suicídio da raça foi um fato adicional para que o feminismo fosse identificado quase que exclusivamente com as aspirações das mulheres privilegiadas da sociedade. Segundo, as feministas que defendiam o controle de natalidade começaram a difundir a ideia de que a população pobre tinha a obrigação moral de reduzir o tamanho de sua família, porque as famílias grandes drenavam os impostos e os gastos com caridade dos ricos e porque as crianças pobres eram menos propensas a se tornar "superiores". P. 212


Conforme o que foi citado acima, a questão do aborto é extremamente sensível, uma vez que historicamente as mulheres negras e as mulheres brancas não buscavam o aborto pela mesmo motivo. Isso acaba resultando em uma pressão sobre as mulheres negras, sobre a pressão acerca do aborto e da esterilização forçada. Os direitos reprodutivos das mulheres negras e latinas estava em risco. Essa diferença de realidade foi o motor do movimento contra a esterilização forçada que surgiu juntamente ao movimento pela legalização do aborto.





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