ANGELA DAVIS: A LIBERDADE É UMA LUTA CONSTANTE (ABOLICIONISMO PENAL E VÍNCULOS TRANSNACIONAIS)

O COMPLEXO INDUSTRIAL-PRISIONAL E O ABOLICIONISMO PENAL


Angela Davis se refere ao complexo industrial-prisional como sendo um complexo altamente lucrativo, especialmente em um contexto global em que o número de prisões privadas vem aumentando constantemente. Ao tratar do abolicionismo penal, a autora defende que é preciso desassociar a relação crime-prisão. A própria prisão impede os questionamentos do porquê aquela pessoa estar ali, do porquê de ter cometido tal crime. Basta deixá-la presa, e pronto. Evita-se assim o debate maior sobre o porquê da maioria dos presos serem pretos, serem analfabetos, etc.


Por isso, pra Davis não basta uma simples reforma no sistema prisional, é necessária completa abolição desse sistema, para que as pessoas comecem a pensar no real problema entre as causas das execuções de tais crimes.


Uma das maiores corporações privadas do mundo é a G4S, que é uma empresa transnacional de segurança. A G4S está por trás de diversas prisões privadas ao redor do globo, e está ligada diretamente à forma como os israelenses mantém através da força e da “segurança” o apartheid contra os palestinos:


“Sob o pretexto da segurança e da segurança do Estado, a G4S se infiltrou na vida das pessoas mundo afora – particularmente na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos e na Palestina. Essa empresa é a terceira maior corporação privada do mundo, depois do Walmart e da Foxconn, e é a maior empregadora do setor privado no continente africano. Ela aprendeu a lucrar com o racismo, com as ações contra imigrantes e com as tecnologias de punição em Israel e em todo o mundo. A G4s é responsável direta pelo modo como a população palestina vivencia o encarceramento político, assim como por aspectos do muro do apartheid, do aprisionamento na África do Sul... O setor mais lucrativo do negócio de prisões privadas é composto pelos centros de detenção de imigrantes. Portanto, é fácil compreender por que a legislação mais repressiva contra imigrantes nos EUA foi delineada por empresas de prisões privadas em um esforço flagrante de maximizar seus lucros.”


Para entender a luta contra o racismo sistêmico no plano global, é necessário entender que “o que acontece na palestina é reproduzido na Europa, nos Estados Unidos, etc”. O maniqueísmo se baseia em estereotipar, instigar o medo, oprimir, prender/assassinar e lucrar com base nesse estereótipo e no medo que esses estereótipos geram. Para a autora, a luta antirracista precisa aumentar suas solidariedades transnacionais, o que significa que trocas devem ser feitas entre a luta pelos direitos dos afro americanos e a luta pelos direitos dos palestinos: “Então, se falamos em abolir o complexo industrial-prisional, devemos falar também em abolir o apartheid e colocar um fim à ocupação da Palestina.”


DESENVOLVIMENTO DIALÉTICO DO MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO NEGRA


Aqui, Davis chama atenção ao modo como o movimento pela libertação negra funciona pelo globo. Usando o exemplo da Ku Klux klan, ela ressalta como a KKK foi iniciada após a escravidão, caracterizando o movimento dialético: sempre que há um movimento pela liberdade, há uma tentativa de restringi-lo aos direitos civis. A cada conquista, uma tentativa de que essa conquista não seja uma conquista de fato.


É disso que se trata o atual sistema industrial-prisional, de acordo com Angela Davis: trata-se de uma manifestação desse movimento dialético. Trata-se da resposta para limitar algo conquistado anteriormente, assim como foi o surgimento da Ku Klux Klan, assim como foram o Jim Crown (regime separatista nos EUA) e o apartheid (regime separatista na África do Sul).


Essa perspectiva é importante para pensar que o modus operandi (a forma como o racismo opera) no mundo inteiro é a mesma, através do ciclo da estereotipação, medo, opressão, prisão/morte e lucro. Dessa forma, para sanar os abusos das polícias ao redor do mundo e a diminuição da população carcerária não basta uma restruturação ou reforma da polícia em um estado, ou em um país, porque o modus operandi do racismo é um sistema global. Estamos falando aqui de uma luta sistêmica e transnacional, que precisa ser alimentada com base nas solidariedades transnacionais, e isso significa reconhecer a luta da palestina, dos afro americanos e dos latinos.

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